Na maioria dos casos, não. A orientação de esperar a catarata ficar madura fazia sentido com as técnicas de décadas atrás. Hoje o procedimento é feito por microincisão e funciona bem mesmo em estágios iniciais, enquanto um cristalino muito endurecido tende a tornar a cirurgia mais trabalhosa. O que define a hora certa não é o estágio da opacidade, e sim o quanto a visão já atrapalha a sua rotina.
“Doutor, a minha catarata ainda não está madura, não é? Acho melhor esperar mais um pouco.” Escuto essa frase quase toda semana no consultório, e quase sempre a minha resposta surpreende. Se você ouviu de um parente, de um conhecido ou até de um médico há muitos anos que catarata só se opera quando amadurece, a confusão é compreensível: essa ideia já foi verdade. A medicina mudou, e vale entender por quê.
De onde vem a ideia de que a catarata precisa amadurecer?
Décadas atrás, a técnica cirúrgica disponível costumava funcionar melhor quando o cristalino já estava mais endurecido, mais “maduro”. Naquele contexto, pedir para o paciente esperar fazia sentido clínico.
Muita gente que se consultou naqueles anos, ou que ouviu isso dos pais e dos avós, guarda essa lembrança. Não é bobagem nem teimosia: é a história da própria oftalmologia, que segue sendo repassada de geração em geração dentro das famílias.
Por que hoje o raciocínio é diferente?
A cirurgia mais realizada atualmente é a facoemulsificação. Por uma microincisão, um aparelho de ultrassom fragmenta e aspira o cristalino que ficou opaco, e no lugar dele entra uma lente artificial. A técnica funciona bem mesmo quando a catarata ainda está no início.
E há um detalhe que pouca gente conhece: uma catarata muito endurecida costuma exigir mais energia de ultrassom e mais tempo de procedimento, o que a torna mais delicada de operar. Ao contrário do que se imaginava, esperar demais pode acabar jogando contra você.
Hoje não indicamos o procedimento pelo grau de maturação. Escolhemos, junto com cada paciente, o melhor momento para cuidar da visão. E esse momento pode, inclusive, ser antes de a catarata aparecer.
Quando é a hora certa de operar a catarata?
A pergunta que realmente importa não é “já amadureceu?”, e sim: a sua visão está atrapalhando o que você precisa e gosta de fazer? Dirigir à noite, ler, reconhecer rostos, trabalhar, enxergar as cores como antes, lidar com o brilho das luzes.
Quando a visão embaçada começa a limitar a sua rotina ou a sua segurança, é hora de conversar sobre a cirurgia. Repare que essa é uma decisão individual: depende de você, da sua profissão, da sua idade, dos seus olhos e do quanto a visão atual incomoda, não de um número ou de um estágio mágico de maturação.
Em casos iniciais, quando a visão ainda não atrapalha, acompanhar de perto pode ser razoável. O que eu oriento evitar é esquecer a catarata por muitos anos. Deixada tempo demais, ela pode endurecer bastante e, em situações mais raras, favorecer complicações como o aumento da pressão dentro do olho. Não digo isso para assustar ninguém, e sim para deixar claro que amadurecer não é uma meta a ser perseguida.
Dá para operar antes de a catarata aparecer?
Essa é a parte que mais costuma surpreender na consulta. Em muitos casos, sim.
A catarata nada mais é do que o cristalino, a lente natural do olho, ficando opaco com o tempo. Para algumas pessoas, principalmente quem já usa óculos para perto e para longe ou tem grau mais elevado, pode fazer sentido substituir esse cristalino por uma lente artificial antes mesmo de ele ficar opaco. É o que chamamos de cirurgia refrativa do cristalino, ou troca refrativa do cristalino.
O raciocínio é simples: como a lente artificial não fica opaca com o passar dos anos, aquele olho não desenvolve catarata no futuro. Além de corrigir o grau e reduzir a dependência dos óculos, resolve de uma vez uma questão que, mais cedo ou mais tarde, apareceria.
Não é uma indicação para todo mundo. É uma escolha que faz sentido para perfis específicos e sempre depende de avaliação individual cuidadosa. Mas é importante que você saiba que a possibilidade existe.
Que lente entra no lugar do cristalino?
A lente artificial, chamada de lente intraocular, fica no olho de forma permanente e não precisa de troca periódica. Hoje existem opções que vão além de apenas clarear a visão:
- Lentes tóricas, que corrigem o astigmatismo.
- Lentes monofocais, que privilegiam uma distância de foco.
- Lentes de foco estendido e multifocais, pensadas para reduzir a dependência dos óculos tanto para longe quanto para perto.
Nenhuma categoria de lente é a melhor para todo mundo. Cada uma tem características próprias, e a escolha depende dos seus olhos, da sua rotina e das suas expectativas. Por isso eu não prometo que você nunca mais vai usar óculos. O que me comprometo a fazer é estudar o seu caso com cuidado para indicar a lente que melhor combina com a sua vida.
Como é a avaliação em Manaus?
Antes de indicar qualquer procedimento, faço questão de uma avaliação individual detalhada: verificar a saúde da córnea, da retina e da mácula, medir o olho para o cálculo da lente, entender como você usa a visão no dia a dia e alinhar expectativas com sinceridade. É essa avaliação, e não o estágio da catarata, que define o melhor momento e o melhor caminho para cada pessoa.
Parte da precisão de uma cirurgia do cristalino vem de um detalhe que o paciente não vê: o quanto o cirurgião enxerga bem o que está fazendo. No centro cirúrgico eu utilizo um sistema de visualização em 3D, em que a cirurgia é acompanhada em uma tela de alta resolução, com imagem tridimensional e muito ampliada do olho. Isso favorece a percepção de profundidade, costuma permitir trabalhar com menos luz dentro do olho e deixa toda a equipe acompanhando cada etapa.
Perguntas frequentes sobre catarata madura
A cirurgia de catarata dói? Na grande maioria dos casos é indolor. É feita com anestesia em colírio, sem cortes com pontos e com recuperação rápida. O desconforto costuma ser mínimo.
Vou ficar sem enxergar enquanto espero? Não. A catarata costuma evoluir devagar, ao longo de meses ou anos. O acompanhamento existe justamente para escolhermos juntos a hora certa, sem sustos.
Preciso operar os dois olhos no mesmo dia? Normalmente não. Costumamos operar um olho de cada vez, com poucos dias de intervalo, para acompanhar a recuperação com segurança.
Se você desconfia que tem catarata, já ouviu que precisa esperar ou tem curiosidade sobre a troca do cristalino, o meu conselho é simples: não decida sozinho pela internet, e também não fique aguardando um amadurecimento que talvez nem seja necessário. Uma avaliação tranquila mostra exatamente onde você está e o que faz sentido para o seu caso.